“Subi no parapeito da ponte. Lá embaixo o rio me chamava com sua voz antiga. Pensei em João no hospital, suspenso entre mundos na mãe, em todas as dores que a música faz vibrar no pai, sozinho contra o peso de viver.” Ao receber a notícia de uma tr agédia familiar, Luiz volta à cidade de sua infância depois de anos de ausência. Enquanto espera por um desfecho incerto, ele é forçado a confrontar as ruínas emocionais que deixou para trás. Há livros que nos impactam pela sua força de novidade, e nquanto outros promovem uma forma de reencontro. Poucos, no entanto, nos interpelam com um misto de descoberta e reconhecimento, como foi o caso para mim deste O corpo sabe que é memória, primeiro livro de Rafael Niepce. A cada releitura o texto me c omoveu: não apenas nos momentos em que sua carga afetiva se intensifica, mas também em passagens discretas, quase laterais, nas quais algo vibrava sem que eu soubesse nomear de imediato o que me tocava. Logo me dei conta de que essa comoção era resul tado do manejo da linguagem de que esta novela profundamente musical presta testemunho. Trata-se de uma prosa segura, não raro atravessada por grande densidade vivencial e por momentos de notável força lírica. Impressiona ainda o domínio arquitetôni co da forma novela que se vê aqui. Gênero exigente, que pede concentração e unidade, a novela encontra neste livro uma realização surpreendentemente madura para uma obra de estreia. Cada uma das finas linhas da narrativa é costurada em sua própria te mporalidade. Assim, a teia de sentidos vai se construindo organicamente, sem se impor ao leitor, sem pavimentar uma única via de interpretação. Há uma confiança serena tanto na inteligência do leitor quanto na própria literatura como pátria da abertu ra de sentido — e essa confiança costuma ser sinal, ou condição, de boa literatura. A escolha do enredo também é decisiva. Ao situar a narrativa no interior agrário e católico do país, a novela recupera algo de uma sociabilidade reconhecível na noss a vivência individual e explorada em nossa literatura. Difícil não lembrar de clássicos como Lavoura arcaica, de Raduan Nassar, ou Dois irmãos, de Milton Hatoum, que também investigam o núcleo familiar como espaço de tensão simbólica, afetiva e pulsi onal. Sem dúvida, este livro pode ser lido como um jovem descendente dessa importante tradição da prosa brasileira contemporânea. No entanto, é inegável que O corpo sabe que é memória já nos permite entreouvir uma voz narrativa própria. Que ela enco
| Código: |
9786585603416 |
| EAN: |
9786585603416 |
| Peso (kg): |
0,000 |
| Altura (cm): |
20,80 |
| Largura (cm): |
13,50 |
| Espessura (cm): |
0,90 |
| Especificação |
| Autor |
Niepce, Rafael |
| Editora |
EDITORA ZAIN |
| Ano Edição |
2026 |
| Número Edição |
1 |