Uma narradora morta — revisora e ghost-writer aposentada — desperta dentro do caixão, na véspera de São João, e decide escrever, ali mesmo, sua “obra póstuma”, única chance de ter o nome reconhecido. Memórias póstumas de uma anônima é o relato desse esforço. Sem a desculpa da falta de tempo, matéria que agora lhe sobra, a autora precisa enfrentar suas próprias limitações e encarar sem pudor as engrenagens de um mercado editorial cada vez mais pautado pela mercantilização da figura do autor. Quem conhece a obra de Maria Valéria Rezende pode se surpreender com o tom desta comédia amarga. Em vez da sugerida ironia machadiana, somos apresentados a um texto sarcástico, desconcertante, como se, aos 84 anos, ela resolvesse questionar o outro lado da vida literária. Ao contrário de outros escritores que aproveitam sua maturidade artística para sintetizar o processo de uma vida inteira, Maria Valéria Rezende lembra o crítico Edward Said e chuta o balde. Não há aqui a limpeza de um testamento li terário, mas uma mulher morta, contando às pressas os fiascos de uma vida inteira dedicada às palavras de outros. No fim das contas, o relato de seus fracassos é, ironicamente, sua obra. Há algo de paradoxal em ver uma das mais consagradas autoras br asileiras emprestar sua voz a essa angústia anônima — o pesadelo que todo escritor prefere não nomear.
| Código: |
9786582716164 |
| EAN: |
9786582716164 |
| Peso (kg): |
0,000 |
| Altura (cm): |
21,00 |
| Largura (cm): |
14,00 |
| Espessura (cm): |
1,00 |
| Especificação |
| Autor |
Rezende, Maria Valéria |
| Editora |
ACAO EDITORA |
| Ano Edição |
2026 |
| Número Edição |
1 |