• Cartas De Meu Pai

Cartas De Meu Pai

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"Caro leitor, para entender ''''''''Cartas de meu pai'''''''' não é necessário recorrer à cronologia, pois elas falam por si só: trata-se de um pai, Boanerges Sena, que procura acompanhar o filho (Cristovam Sena) que acabara de se mudar de Santarém para a ca pital do Estado (Belém-PA) para estudar e trabalhar. Que maravilhoso esforço essa educação à distância!
Mas a cronologia oferece um tempero adicional. Tudo se passa no intervalo de 1969 a 1974. Serviço telefônico precário e ligações sujeitas a espe ra tormentosa. Serviço postal deficiente, mesmo para a capital do estado. Ainda não havia o CEP, código postal, que destravou o sistema de identificação dos logradouros públicos das cidades a partir de 1971. Essa dificuldade de comunicação fez nascer programas de rádio com horário fixo para transmissão de mensagens como:
– Atenção, D. Maroca. Seu filho Bernardo informa que o numerário foi liberado ontem.
Essa era a forma mais eficiente que as pessoas de cidades e comunidades ribeirinhas utiliz avam para repassar mensagens como esta. A outra forma era mandar carta por um portador. Para isso, o remetente teria que se deslocar “até o campo”, referindo-se ao campo de aviação, aeroporto.
O seu Boa, como era conhecido, era apenas mais um amazôn ida debulhando soluções para os problemas da região: tinha que vencer “o muro alto, invisível, que separa o Brasil”, como defini certa vez. As dificuldades gestam soluções potenciais. E as soluções ganham vida: a Amazônia inventou a rede anônima de s olidariedade entre os indivíduos para superar tais limitações. Há sempre uma alma disposta a levar uma encomenda ou apenas uma carta a um destinatário muitas vezes desconhecido, numa corrente de solidariedade como quem reconhece que, do outro lado, e stá o destinatário, um outro elo da corrente padecendo das mesmas limitações.
Mas não é só isso. Essas cartas postadas aos cuidados de fulano de tal, levam também um punhado de esperança ao distante, levam cheiros e sabores imprescindíveis, em parti cular aos paraenses. O seu Boa reuniu na sua correspondência essas coisas de que tratam os naturalmente doutos, com linguagem simples e direta de pai: “cuida do teu joelho”, preocupação “não esquece de escrever para o teu irmão”, a busca de manter a união familiar “olha pra frente, rapaz: economia e plano de vida”, o incentivo de pai e chamada à preservação de valores quando o filho foi contratado pelo Paysandu e teve acesso à universidade, o orgulho inevitável e transbordante de pai parecia

Código: 9786589841579
EAN: 9786589841579
Peso (kg): 0,000
Altura (cm): 23,00
Largura (cm): 16,00
Espessura (cm): 2,00
Especificação
Autor Boanerges, Sena
Editora LETRA SELVAGEM
Ano Edição 2026
Número Edição 1

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