Quando dizemos ajeum, em iorubá, ou mi’u, no idioma sateré-mawé, não estamos apenas falando de comida estamos demarcando territórios de conhecimento a partir de nossas línguas, e isso é um gesto de contracolonização. Por meio dessas palavras, o alim ento não se restringe ao prato envolve território, corpo e espírito é encontro, partilha, cuidado e ancestralidade. Assim afirmamos nossa maneira de existir, sentir e alimentar, recusando a lógica que busca nos limitar e insistindo que a comida é, antes de tudo, vida em movimento. […] No âmbito dos sistemas alimentares, nos orientamos pelos ensinamentos das nossas mestras e nossos mestres, e tomamos a roça e o terreiro como experiências concretas capazes de demonstrar modos de produzir e compa rtilhar processos alimentares ancestrais. Escolhemos a roça e o terreiro — e não os sistemas agroflorestais, por exemplo — porque no encontro com os nossos e as nossas não seria necessário apresentar-lhes uma definição ou tecer explicações conceituai s a respeito de espaços que já fazem parte do seu cotidiano. Roça e terreiro, em nossas comunidades, são lugares de produção de alimento e cuidado, de encontros para a partilha da vida, de conexões com a espiritualidade e de articulações para as luta s. São tecnologias ancestrais que se situam em processos históricos e dinâmicos no tempo — não são técnicas atrasadas, retrógradas, como alguns insistem em rotular.
— Inara Nascimento & Rute Costa
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A população afrodescendente e os povos i ndígenas no Brasil foram historicamente privados do acesso à terra, expostos de forma mais intensa aos riscos da degradação ambiental e à ruptura de seus sistemas alimentares. A insegurança alimentar (moderada ou grave) atinge mais domicílios chefiad os por pessoas negras do que por pessoas brancas, e o consumo de frutas e verduras é menor entre as famílias negras. O avanço dos alimentos ultraprocessados tem sido desproporcionalmente mais intenso entre pessoas negras e, principalmente, indígenas — ameaçando não apenas a saúde, mas, em casos de quilombos em áreas rurais e de povos aldeados, também a sociobiodiversidade e diferentes culturas alimentares. Ao mesmo tempo, há lacunas de conhecimento, como dados desatualizados, além da inexistênci a de metodologias validadas e pesquisas que ofereçam um retrato mais nítido da situação alimentar vivida pelos povos indígenas no Brasil. […] Com as desigualdades à vista, é fundamental estimular o olhar para as questões étnico-raciais na alimentação
| Código: |
9786560081284 |
| EAN: |
9786560081284 |
| Peso (kg): |
0,000 |
| Altura (cm): |
21,00 |
| Largura (cm): |
14,00 |
| Espessura (cm): |
1,00 |
| Especificação |
| Autor |
Rute, Costa |
| Editora |
ELEFANTE |
| Ano Edição |
2026 |
| Número Edição |
1 |